Cotidiano
(Aquarela de Ivani Castilho)
Todos os direitos reservados.
Da janela do apartamento
do décimo terceiro andar,
por entre as casas miúdas
desse aglomerado humano,
onde a fumaça filtra
as cores do entardecer,
eu quase já posso ver
os rastros de luz e cor
no céu da minha cidade,
das estrelas miúdas
que tentam transparecer.
Enquanto que o vento agita
as roupas brancas de um varal,
percebo que essa gente aflita,
rotinizada pelo cotidiano,
tem sua alegria arrastada
para muito mais além
deste triste cenário urbano.
Pobre gente oprimida,
dependente de ninguém!
■■ M. I. Carpi
■ Leitura Poética — “Cotidiano”
Em “Cotidiano”, Maria Inês Carpi contempla a cidade de um
ponto alto — a janela do décimo terceiro andar — e transforma a
observação do mundo urbano em meditação poética. O olhar da
poeta é panorâmico e íntimo ao mesmo tempo: ela vê a fumaça
que encobre o entardecer, as roupas brancas balançando ao vento,
as vidas anônimas que se repetem abaixo.
O poema alterna ternura e melancolia. Há beleza no movimento
das cores, no vento, nas estrelas miúdas que tentam aparecer; mas
há também a tristeza de quem percebe o esvaziamento da alegria, a
mecanização da vida, a rotina que arrasta os sonhos.
A poeta não acusa — observa. Não denuncia — comove. O verso
“pobre gente oprimida, dependente de ninguém” revela uma
consciência social madura, mas revestida de compaixão. É a poeta
que vê, compreende e se entristece, mas ainda acredita na
possibilidade de beleza, mesmo quando o mundo parece cinza.
“Cotidiano” encerra esse ciclo urbano com a delicadeza de uma
pintura: é uma aquarela de humanidade, pintada com palavras que
revelam tanto o peso da vida quanto o sopro da esperança

Comentários
Postar um comentário