■■ Maria Inês Carpi
Periferia sem Cor
Pudesse eu descrever
as tardes mornas de outono!
Por entre as sombras miúdas
destas folhagens sem flor
cada rosto entristecido
de todo gesto vivido,
que nas praças esquecidas
descansam de seu labor.
Então descreveria
como um varal diverso
em diferente poesia
desfiada em cada verso,
no anverso de cada dor.
Mas decerto mudaria
a alegria ausente
da rotina cotidiana,
triste paisagem urbana,
periferia sem cor?
■■ M. I. Carpi
■ Leitura Poética — “Periferia sem Cor”
Em “Periferia sem Cor”, Maria Inês Carpi dá voz à paisagem
esquecida — o cotidiano de rostos cansados, de vidas que
sobrevivem entre sombras e poeira. O poema é um retrato da
desigualdade, mas também um exercício de empatia e de olhar
poético sobre aquilo que a pressa urbana costuma ignorar.
A autora descreve a periferia não pela miséria, mas pela ausência
de cor — uma metáfora que carrega tanto a carência material
quanto o apagamento simbólico. A linguagem, aparentemente
simples, revela uma complexa arquitetura emocional: cada verso é
uma tentativa de iluminar o cinza com palavras.
Há no texto um lirismo contido, que observa sem julgar. A poeta
se coloca como testemunha silenciosa da rotina que oprime, mas
também como alguém que deseja transformar — “mudar a alegria
ausente / da rotina cotidiana”. É a esperança como gesto de
resistência.
Entre varais, sombras e praças esquecidas, “Periferia sem Cor”
convida o leitor a enxergar o invisível — a perceber a poesia que
ainda pulsa, tímida e teimosa, no coração da cidade

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